1ª Parte – Ação do gradiente térmico no comportamento do pavimento
A experiência para a constatação do efeito do gradiente térmico no movimento descendente da água (líquida ou vapor), foi a execução de um segmento experimental de 1 km, num trecho de 10 km de pavimento, com uma única diferença: a superfície das suas camadas inferiores (sub-base e base) foi impermeabilizada, conforme figura A.15. A finalidade foi evitar o movimento da água, da base para as camadas inferiores, devido ao gradiente térmico que é criado pelas condições ambientais.

Figura A.15 Pavimento projetado por Villibor, 1982: segmento experimental no trecho Santa Lúcia – Rincão – SP, estruturas com e sem impermeabilização da sub-base e reforço.
- Diagnóstico do comportamento
Após um ano de tráfego, incluindo um período chuvoso, quase todo o segmento experimental apresentou uma série de defeitos: deformações excessivas (afundamentos), trincamentos nas rodeiras e rupturas em diversas áreas.
Isto ocorre, pois, com as chuvas, a água infiltra e permanece na base, pela falta de ação do gradiente térmico. Essa água livre penetra na interface das “placas” (plano horizontais e inclinadas) da estrutura da base, geradas pela compactação durante a execução. Seu efeito é a diminuição drástica do atrito entre as placas, o que possibilita uma movimentação delas, pela ação cisalhante das cargas, resultando na ruptura (da base), caracterizada pelo afundamento das rodeiras e soerguimento da parte central da pista. Este fenônemo é ilustrado pelas figuras A.16 e A.17, obtidas em uma vala de inspeção aberta em área com ruptura, que mostram as camadas inferiores impermeabilizadas nesse experimento e, também, a sub-base e o reforço nivelados e em perfeitas condições.

Figura A.16 Detalhe da inclinação da ruptura. Figura A.17 Aspecto da vala com base rompida.
A contraprova desse efeito foi demonstrada no restante do trecho, executado conforme o indicado na figura A.15. Sua estrutura permitiu a ação do gradiente térmico que provocou a movimentação da água nas camadas do pavimento e no solo da sua fundação. Isto causou uma diminuição na umidade dessas camadas, em especial da base, em relação à sua umidade de compactação (Hc), conferindo-lhe uma estrutura estável e de suporte elevado, com reflexo na excelente performance do pavimento, até hoje (mais de 25 anos), apesar do tráfego pesado de caminhões com areia, pedregulho e tijolos, na rodovia.
2ª Parte – Efeito da cura por secagem da base no comportamento do pavimento
Uma experiência, que mostra a importância da cura por secagem de uma base de solo laterítico argiloso, foi implementada com a execução de um segmento experimental de 1 km no trecho Sertãozinho – Dumont (SP). Vide Barquete (1986).
Após a compactação na Ho do Proctor Intermediário, a superfície da base, sem a cura por secagem, foi impermeabilizada com CM-30, com taxa de 1,0 l/ m2. Sobre ela foi aplicada uma manta geotêxtil não tecida, que recebeu uma nova imprimação com CM-30 à taxa de 1,0 l/m2. A seguir foi aplicada areia, feita a rolagem e, após, executado um revestimento triplo. Este “pacote impermeabilizante” tinha a finalidade de minimizar (ou evitar) a saída da água por evaporação.
A figura A.18 ilustra a fase da impermeabilização com uso do geotêxtil e a figura A.19, o inicio do efeito da contração da base, no revestimento.

Figura A.18 Fase da Imprimação com geotêxtil. Figura A.19 Início do reflexo das trincas.
- Diagnóstico do comportamento
Passados seis meses, teve início o aparecimento de reflexos de placas no revestimento; após 1 ano, todo o segmento mostrava “blocos” delineados pela penetração do “geotêxtil” e do tratamento, nas trincas de contração da base geradas pela sua secagem devido ao fenônemo do gradiente térmico. Este experimento mostra a importância de deixar trincar a base, antes de executar seu revestimento, ou seja, a importância da sua “cura por secagem”. As figuras A.20 e A.21 ilustram o padrão de
contração da base, refletido na camada de rolamento.

Figura A.20 Evolução do trincamento da base. Figura A.21 Aspecto da placa com as bordas afundadas.
Pelo exposto, podem-se resumir os benefícios, a saber:
- Nunca se deve executar imprimadura impermeabilizante sobre sub-bases e/ ou reforço do subleito, pois o pavimento, muito provavelmente, apresentará problemas estruturais. Ainda, esse procedimento errôneo, não permitirá usufruir os benefícios do gradiente térmico no comportamento dos pavimentos.
- É obrigatório efetuar a cura da base, por secagem ao ar (aumento dos vazios com ar). Esse procedimento evita trincamentos futuros e propicia uma melhor ação do gradiente térmico no processo de manutenção permanente de uma baixa umidade de equilíbrio (He) na base, em relação à umidade de compactação (Hc), garantindo pavimentos com alta performance estrutural (He < 0,8 Hc).
- A ação conjunta do gradiente térmico e da cura por secagem ao ar, grande responsável pelo comportamento peculiar desses pavimentos nos trópicos, tem comprovação prática na figura 4.29. Ela mostra valores do teor de umidade, obtidos para três trechos, durante periodos que variaram de 06 a 13 anos. Essa ação conjunta, não ocorre em climas temperados e frios; daí a necessidade de se modificar a tecnologia importada, quando se pretende utilizar pavimentos com bases que tenham finos lateríticos.