Entrevistas

Projetos que valorizam a vida

Projetos que valorizam a vida

pranchetaA aplicação de conceitos de humanização em projetos de arquitetura, engenharia e design de interiores sempre permeou a criação dos profissionais dessas áreas, mas ganhou importância fundamental a partir do momento em que qualidade de vida passou a ser tema valorizado, sobretudo nos grandes centros urbanos. A repercussão das condições ambientais na sensação de bem-estar do usuário do ambiente, seja este de trabalho, de compras, lazer, moradia ou outros espaços, é hoje fator incontestável e determinante. O conforto ambiental gera satisfação ao usuário e, conseqüentemente, propicia melhorias na qualidade de vida, sobretudo se este usuário vivenciar várias horas de seu dia em um determinado ambiente. Luz, cores, ergonomia, paisagismo, temperatura, acústica e circulação são componentes essenciais considerados na concepção de um projeto que visa humanizar o ambiente e torná-lo propício à convivência harmoniosa e produtiva. Nesta concepção, o projeto carregará em seu cerne valores sociais que recheiam os aspectos estéticos com a possibilidade da convivência e do prazer em se estar em um determinado espaço. Desta forma, um projeto de arquitetura, engenharia ou design leva em conta a estética, produto de uma cultura e elemento fundamental ao prazer, e incorpora componentes advindos de outras áreas do conhecimento como a psicologia, a sociologia, fisiologia e, até mesmo, as técnicas de gestão de empresas (quando se trata de projetos de áreas comerciais). Esse composto empregado na concepção de projetos considera o indivíduo e sua dimensão humana como prerrogativas para um ambiente personalizado e adaptado à finalidade do mesmo. Assim, a moradia, o trabalho e o lazer se dão em um espaço onde o indivíduo tenha prazer em estar. Contudo, sabemos que as condições sócio-econômicas da população brasileira não permitem a aplicação desses conceitos, especialmente na moradia, à qual milhões de famílias não têm nem mesmo acesso. Cabe, então, às empresas, humanizar seus ambientes, proporcionando aos seus colaboradores conforto e contribuições à qualidade de vida. Para isso, o projeto arquitetônico e o design de interior devem contemplar, ao máximo, os elementos que tornam o ambiente confortável e adequado. As empresas, cientes da importância do bem estar no trabalho, criam, até mesmo, espaços para outras atividades que propiciem alternativas para a qualidade de vida de seus funcionários. Academias de ginástica, espaços para prática de thai chi chuan, ioga ou meditação, salas de relaxamento e massagem permitem que os colaboradores cuidem da saúde, evitem o estresse e se refaçam para continuar enfrentando as batalhas diárias do mercado profissional que está cada vez mais competitivo. As facilidades e a tranqüilidade proporcionadas por ambientes adequados às necessidades do ser humano contribuem, de maneira decisiva, para a boa produtividade empresarial e para a saúde física, mental e emocional dos indivíduos. Afinal, projetos de engenharia, arquitetura e design inadequados transformam o local em um espaço de onde se quer sair o mais rápido possível. Sensação oposta é produzida por ambientes agradáveis. Conforto acústico e térmico, boa iluminação, funcionalidade, mobiliários e cores fazem do projeto um estudo focado no ser humano, no qual a valorização da vida e do convívio humano são as prioridades máximas.

Amália Faleiros Engenheira civil e designer de interiores

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“Nas mãos da população”- com Ricardo Serra

“Nas mãos da população”- com Ricardo Serra

O orçamento participativo é um instrumento no qual os cidadãos decidem quais serão os investimentos municipais, além de permitir o controle da sociedade sobre os gastos públicos orcamento-participativoOrçamento participativo é uma expressão que passou a fazer parte do vocabulário público brasileiro a partir do final dos anos de 1980. Trata-se de um mecanismo de gestão do orçamento municipal utilizado para viabilizar a participação da população na decisão dos investimentos feitos pelas prefeituras. Inicialmente foi implantado em Porto Alegre (RS) em 1989 e se disseminou por várias cidades do Brasil e do mundo como Sevilha (Espanha), Saint-Denis (França) e capitais como São Paulo, Recife, Belém, Buenos Aires (Argentina), além de inúmeras cidades interioranas. No Brasil, o OP tem sido um dos principais instrumentos de gestão de governos do Partido dos Trabalhadores e em 2005 foi adotado em Fortaleza, onde uma equipe técnica especializada viabiliza, através do Orçamento Participativo, a participação dos cidadãos nos processos de decisão sobre os recursos públicos municipais. Subcoordenador do OP da capital cearense, Ricardo Serra é um especialista em Orçamento Participativo com apresentações nos mais importantes congressos e conferências internacionais sobre democracia participativa como o Fórum Social Mundial de Porto Alegre e de Caracas. Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, mestrando em Ciências Sociais, Serra atuou também na coordenadoria do OP da prefeitura de São Paulo, na gestão de Marta Suplicy, desenvolvendo o Orçamento Criança, realizado em todas as escolas municipais da capital paulista. LENC: O que é orçamento participativo e como esse processo beneficia população? Ricardo Serra: O orçamento participativo é um instrumento de gestão municipal que permite à população a participação direta nas decisões sobre como e onde serão investidos os recursos públicos. O objetivo é construir alternativas às políticas neoliberais, ampliando os espaços de participação popular para expandir a democracia representativa. É um modelo que rompe com a tradição de apenas os governantes –  seja em nível executivo ou legislativo – tomarem decisões que nem sempre atendem aos interesses da população. Com o OP, os cidadãos se beneficiam, pois escolhem os representantes de cada bairro e de cada segmento social que irão decidir as obras e projetos prioritários a serem realizados pela gestão municipal. LENC:  Essa influência direta na administração pública modifica a relação que os cidadãos têm com a política? Ricardo Serra: Certamente. O OP também é espaço de conscientização para a cidadania, onde a população pode organizar sua vida em sociedade enquanto protagonista e não apenas como expectador de um processo alheio à sua decisão. Com isso, promove-se uma modificação nas relações políticas e sociais da cidade. A participação do cidadão nas decisões da administração pública vem demonstrando ter um papel fundamental no desenvolvimento do aprendizado coletivo sobre problemas que envolvem a cidade. Mas, para qualificar a participação, possibilitar o acesso às informações sobre o funcionamento da máquina pública e fortalecer o poder popular é necessário uma política permanente de formação dos participantes. LENC: Como acontece o estímulo à participação e essa formação dos participantes? Ricardo Serra:  Ampliando-se o número de assembléias realizadas com a população, aproximando o OP de cada bairro da cidade e possibilitando espaços de participação a um maior número de participantes. Outro desafio fundamental é incentivar a participação dos setores socialmente excluídos, reconhecendo a diversidade social e ressaltando os potenciais de inclusão social do OP. Também é fundamental atuar com total transparência demonstrando ética e respeito durante toda a gestão. LENC: A população participante tem acesso ou controle sobre os investimentos feitos pelo governante? Ricardo Serra: Criar ferramentas de controle social sobre a execução orçamentária é fundamental para democratizar o acesso às informações sobre a gestão e garantir o acompanhamento e fiscalização dos participantes sobre as ações da poder público. Nesse sentido, é muito importante que o OP facilite o acesso às informações sobre a execução orçamentária e instrumentalize os participantes para que eles possam exercer plenamente o controle sobre os gastos públicos, contribuindo com uma maior transparência nas ações do governo municipal. LENC: Como está o andamento do orçamento participativo em Fortaleza? Ricardo Serra: O OP foi implantado em Fortaleza em 2005 e o primeiro passo foi abrir a participação da população na construção do Plano Plurianual Participativo para o período 2006-2009. A incorporação das deliberações populares no planejamento municipal contempla praticamente todas as áreas de investimento da Prefeitura, como assistência social, cultura, educação, esporte e lazer, habitação, entre outras.  No ciclo preparatório foram apresentadas informações sobre o orçamento público – utilizando também teatro de rua e cartilhas – e a metodologia de organização do OP 2005. É importante destacar a prioridade dada pelo OP à participação de segmentos sociais historicamente discriminados como crianças e adolescentes, mulheres, idosos, população negra, GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) e pessoas portadoras de deficiência. Em linhas gerais, o primeiro ano do OP de Fortaleza contou com a participação de mais de 8 mil pessoas, nas 35 assembléias realizadas em todas as regiões da cidade. Foram apresentadas 595 propostas de obras e serviços que discutiram todas as áreas de investimento da Prefeitura Municipal. As demandas de obras e serviços aprovadas no Conselho do OP estão organizadas e publicadas no Plano de Obras e Serviços do OP 2006. Esse importante documento de apresentação dos resultados e de compartilhamento de informações contribui para a fiscalização e acompanhamento da execução orçamentária, dando mais transparência à gestão pública e impulsionando o controle social. Por último, mas não menos importante, 2006 é o ano de implantação do OP Criança. O desafio é criar espaços de participação infanto-juvenil na gestão das políticas públicas municipais, garantindo o exercício da cidadania pelas crianças e adolescentes.

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